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Abril 2025
RL/Homem

Entre ondas e marinheiros

Será que a usaríamos camisas náuticas às riscas se o casal mais estiloso (e esquecido) da Geração Perdida não tivesse mostrado a Picasso um pouco do estilo vintage? Uma teoria com um toque de East Hampton
Por Jay Fielden
Os franceses chamam-lhe "marinière" (marinheira) e têm razões para isso. Os novos recrutas da marinha francesa começaram a usá-la na década de 1850. A camisola de manga comprida, com riscas azuis horizontais e uma faixa branca nos ombros, foi criada para ajudar a distinguir os marinheiros das ondas, caso caíssem no mar. Além da boina, de um Citroën DS e, talvez, de um cigarro da marca Gitanes entre os dedos, quase mais nada simboliza tão profundamente o estilo francês ao nível mais — je ne sais pas — existencial.
O Pinterest está repleto de momentos que deram forma à marinière: Jean Seberg em O Acossado, John Wayne em Adventure’s End (O Fim da Aventura), James Dean com o seu estilo muito próprio e Picasso nos seus vários estúdios de arte na Riviera. Com exceção do seu estado natural sem camisa, poucas eram as outras peças de vestuário que o emblemático representante das riscas náuticas escolhia para o conforto da sua silhueta. Este homem forte era tão exigente fisicamente com as suas roupas como era com o ferro, os restos de madeira e as gotas de tinta. Os padrões da sua roupa seguiam tanto, ou pouco, as regras como as suas telas. As riscas originalmente horizontais enfeixavam-se, tremiam e curvavam-se sobre um peito ostentoso — como se manter uma ordem rigorosa fosse impossível junto a ele. Ainda assim, Picasso imbuiu a marinière do glamour ousado de um génio moderno do século XX, e a peça tem beneficiado com essa perspetiva elegante e vanguardista desde então.
BANDED TOGETHER
Ralph has been riffing on the marinìere for years, styling it in a way that shows how something of simple perfection can be dressed up or down; John Wayne in “Adventure’s End”; a crew of French cadets, 1935; Audrey Hepburn takes a break on a movie set, 1955; James Dean wears Breton stripes; and, below, Picasso, in his studio near Cannes, 1960.
Mas foi realmente Picasso o primeiro aventureiro de estilo vintage a apreciar a combinação de utilidade, charme gráfico e versatilidade duradoura da marinière? Naturalmente, é difícil ter a certeza, mas isso não nos deve impedir de fazer uma suposição ao reler o livro Viver Bem É a Melhor Vingança de Calvin Tomkins, um clássico de 1962 que comenta a Geração Perdida, constituindo uma leitura maravilhosamente escapista e melancolicamente curta de apenas 148 páginas. Nele, Tomkins conta a história de Sara e Gerald Murphy, um casal americano abastado cujo nome talvez não conheça, mas que teve uma influência fundamental na nossa conceção moderna da vida mágica e feliz dos expatriados entre guerras.
But was Picasso really the first magpie of vintage style to appreciate the marinière’s combination of usefulness, graphic charm, and durable versatility?
O pai de Murphy fundou a Mark Cross, fornecedora de produtos em pele e artigos de coleção exóticos na Quinta Avenida, que em tempos áureos era o equivalente a uma Dunhill americana. Depois de se formar em Yale, onde foi membro da sociedade secreta Skull and Bones e criou uma amizade duradoura com o compositor Cole Porter, rejeitou a oferta do pai para trabalhar nos negócios da família e mudou-se para França com a mulher, Sara, que tinha conhecido durante um verão nos Hamptons. (A dada altura, o pai dela, Frank B. Wiborg, foi proprietário de 242 hectares de terra em East Hampton e foi lá que construiu a casa The Dunes, a maior da zona na época.) Em Paris, Murphy estudou pintura. (E era um pintor de qualidade. As suas obras, voltadas para temas que a Arte Pop só espelharia quatro décadas depois, fazem parte das coleções do MoMA e do Whitney.) Vistos como uma dupla de bon vivants com talento para organizar convívios e impressionar os outros com a sua interpretação encantadora da vida, os Murphy rapidamente se integraram no firmamento artístico de Picasso, Stravinsky, Hemingway, Dorothy Parker, Legér e dos Fitzgeralds, acabando por migrar para Paris, o farol da ousadia e realização artísticas.
WHEN EVERYONE WAS STILL NO ONE
Clockwise, from top: The Dunes, the largest estate of its time, was built by Sara’s father in 1909; Gerald with his granddaughter in East Hampton in the late 1950s; Fitzgerald based the main characters of “Tender is the Night” on the Murphys; the novelist didn't like to swim yet when he visited the Murphys—photographed here with his wife Zelda and daughter Scottie—he wore stripes; “Cocktail,” which Murphy painted in 1927, is in the collection of the Whitney Museum; the Hemingways and Murphys with friends in Pamplona, Spain, for the bullfights, 1926; the book jacket of Tomkins indelible story of the little remembered but enormously influential Murphy couple.
Por insistência de Porter, os Murphy descobriram Antibes antes de esta se tornar um destino da moda e, num verão, alugaram todo o edifício do então desconhecido Hotel du Cap. Tal foi o seu impacto na imaginação de Fitzgerald que estiveram na origem dos personagens Nicole e Dick Diver da obra Terna é a Noite do escritor. Sobre Diver, escreveu Fitzgerald, numa frase célebre: "Ele olhou para ela e, por um instante, ela viveu nos brilhantes mundos azuis dos seus olhos." Diver é também descrito como um homem que "representava externamente a evolução exata e mais avançada de uma classe", do tipo que segura o casaco na mão como "a capa de um toureiro". Se o decidir ler o livro de Tomkins, o que recomendamos vivamente, verá que esta descrição era um retrato fiel de Murphy, que herdou do pai o gosto pelo desejável e conquistou as pessoas com o seu estilo. O casal acabou por voltar para os Estados Unidos e, depois de demolir a The Dunes em 1941 (não conseguiram alugá-la nem vendê-la), construíram uma casa muito perto desta, Swan Cove, que o escritor John Dos Passos gostava de visitar. "As pessoas mais próximas dos Murphy achavam quase impossível descrever o caráter especial da vida do casal ou o charme que exercia sobre os seus amigos", escreve Tomkins, realçando que somente Murphy poderia vestir-se daquela forma naquela altura. As suas roupas, escreve, teriam sido "de uma elegância ligeiramente exagerada, se qualquer outra pessoa as tivesse usado". Talvez, do seu vestuário, só a marinière fosse diferente. Tendo surgido como roupa de trabalho humilde, e sendo fácil de combinar com qualquer outra peça, a marinière era algo que os amigos dos Murphy também podiam usar. "A camisola de malha de marinheiro 'funcional' de Gerald... tornou-se o uniforme padrão para os verões na Riviera", evidencia Tomkins. No grupo incluía-se Picasso, como referimos, mas também Hemingway e Fitzgerald. E nadar nem era da sua predileção. Foi assim que, a partir de um grupo pequeno e maioritariamente americano, uma camisola muito francesa viria a conquistar o mundo.

JAY FIELDEN, the former editor of Esquire and Town & Country, is an editorial consultant at Ralph Lauren.